25/08/2025
Nayara Rosolen – Equipe CNU
Resíduos que antes seriam descartados sem valor, agora podem se transformar em insumo agrícola, ração animal, energia elétrica e até hidrogênio verde. Essa virada tecnológica é a aposta do Projeto Biorrefinaria, que dá um novo salto com a parceria firmada entre a Fundação Wilson Picler (FWP) e a empresa Global Sistemas de Sustentabilidade Ltda. O acordo prevê a instalação de uma unidade piloto, etapa fundamental para levar a pesquisa do laboratório à escala industrial.
O avanço surge em um momento estratégico. O Brasil enfrenta grandes desafios no descarte de resíduos agropecuários e urbanos. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o país gera mais de 80 milhões de toneladas de lixo urbano por ano, sendo que boa parte ainda tem como destino aterros ou descartes irregulares. No campo, os descartes da pecuária e da agricultura também representam um impacto ambiental, com risco de contaminação do solo, da água e de emissão de gases de efeito estufa.
A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) aponta que as falhas na gestão de resíduo, somados os custos ambientais e climáticos da poluição com os respectivos danos à biodiversidade e à saúde humana, foi da ordem de R$ 97 bilhões em 2020 e, se nada mudar, a tendência é que em 2050 os custos indiretos podem chegar a R$ 135,9 bilhões.
Tendo todo esse impacto em vista, o Projeto Biorrefinaria tem o objetivo de desenvolver uma biorrefinaria modular, dentro do conceito da economia circular, tecnologia sustentável e de baixo custo. A ideia é que, por meio de processos inovadores como a estabilização de matéria orgânica, biodigestão controlada por I.A e processo de oxidação avançada, os resíduos agropecuários e urbanos sejam convertidos em soluções de alto impacto econômico e social. Dentre elas, a geração de insumos seguros para alimentação ou produção de ração animal, fertilizante orgânico, biogás, energia elétrica e hidrogênio verde.
A diretoria e o conselho curador da FWP se reuniram com o presidente da Global, Daniel Malacarne Silva, o técnico em agropecuária e idealizador de uma cooperativa de produtores Vinicius Mocelin e o suinocultor Edson Roberto Gusso, para alinhamento dos detalhes e definição da parceria, que foi firmada na manhã de 20 de agosto de 2025.
Do “zero ao um”
O projeto é coordenado pelo doutor em Engenharia Mecânica Marcos Baroncini Proença e desenvolvido pela Rede Cooperativa de Estabilização de Matéria Orgânica e Geração de Biogás (RCOOP EMOB), sob liderança de Proença e do doutor em Produção Vegetal, Edmilson Cezar Paglia.
A rede reúne pesquisadores e pesquisadoras do Laboratório de Biorrefinaria da FWP, do Grupo de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade da Uninter (GITS-UNINTER), do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTPR Medianeira) e por parceiros internacionais do Instituto Politécnico de Bragança de Portugal (IPB), da Universidad del Nordeste (UNNE-ARG) e da Universidad de La República de Uruguay (URU).
Proença explica que a Global entra para o projeto com o capital para a pesquisa, prevista para três anos, e a FWP entra com o corpo técnico, especializado, e com a produção de toda a tecnologia envolvida. O coordenador destaca que o piloto é a fase intermediária, indispensável para a transposição do laboratório para a escala industrial. “Estamos saindo do zero para o um. A expectativa é que [a biorrefinaria] cresça e vá ampliando, gerando novas soluções para uma série de necessidades que vemos tanto da agricultura quanto da pecuária”, afirma.
O presidente da FWP, Luciano Frontino de Medeiros, afirma que a biorrefinaria é o carro-chefe da entidade, que tem como premissa o amparo à educação, ciência e tecnologia, e mantém o projeto. Por isso, essa parceria é “muito oportuna e significativa”. “Vai nos trazer uma série de benefícios, tanto para o âmbito acadêmico, com relação às pesquisas desenvolvidas, quanto para o social que vai proporcionar com relação à questão ambiental, inclusive por causa dessa reutilização de materiais que podem ser colocados para a geração de energia”, salienta.
A empresa de sistemas de sustentabilidade ainda será inserida no tratamento dos resíduos que recebe, principalmente do Porto de Paranaguá (PR). “O estudo que eles estão fazendo vai ser muito importante para a nossa unidade de compostagem que, no seguimento, às vezes a gente tem algumas dificuldades com a informação. Isso vai fazer com que a gente consiga complementar”, declara o proprietário da Global, Daniel Malacarne Silva.
Produtor rural desde a infância, o bacharel em ciências contábeis e técnico em agropecuária Vinicius Mocelin atua há 30 anos na produção de insumo independente e criou uma cooperativa de pequenos produtores. Como um possível beneficiário do projeto, soube da proposta de Biorrefinaria através do Instituto Federal Catarinense (IFC) e acredita que “ninguém vive sozinho”. Por isso, a importância de parcerias que contribuam para que as instituições de ensino consigam desenvolver novas soluções, da mesma forma que elas precisam de apoio para a transposição destas pesquisas de forma prática e efetiva para o mercado.
“Um ajudando o outro, talvez a gente consiga criar uma sociedade melhor, de forma sustentável, que é o meu intuito e o motivo de tanto sacrifício e trabalho. Se a gente puder usar de forma correta, é uma reconstrução de modelo sustentável de vida, e que traz dignidade para as pessoas”, acredita Mocelin.
Com uma empresa em Mandirituba (PR), Edson Roberto Gusso trabalha com suinocultura e transporte de resíduos. O profissional acredita na verticalização do projeto e na criação de suínos para produção de alimentos e seus derivados como uma parceira. “Nós conseguimos dar um destino mais correto para esses resíduos, junto com a compostagem, dentro desse conjunto. O projeto está bem alinhado e o avanço deve ser mais rápido do que a gente imagina”, conclui Gusso.
Fome Zero e Agricultura Sustentável
Pelo menos quatro objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) são contemplados pela iniciativa. Ao pensar no eixo 2 (Fome zero e agricultura sustentável), Proença explica que “por gerar insumo com menos custo, será possível baixar o custo produtivo de alimentos orgânicos, os tornando mais acessíveis para o mercado e contribuindo para maior segurança alimentar. Além disso, pela produção de alimento seguro para suínos a menor custo, baixará também o custo desse tipo de carne”.
A redução do custo para a produção de energia, a possibilidade de uso desde em condomínios até grandes aterros e a diminuição da emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa, visam ainda os eixos 7 (Energia limpa e acessível), 11 (Cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (Ação contra a mudança global do clima), respectivamente.
“Possibilitará a produção de energia acessível diretamente aos produtores orgânicos e cooperativas, através da queima de biogás em motogeradores de baixo custo ou em pequenas termelétricas […] O tratamento dos gases gerados nos motogeradores ou termoelétricas, possibilitará a produção da commodity hidrogênio verde, em ascensão internacional. A diminuição da emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa contribui ativamente contra a mudança global do clima”, destaca o coordenador.
O propósito da biorrefinaria também está alinhado ao Decreto Federal nº 10.375/2020, que instituiu o Programa Nacional de Bioinsumos, e a Lei Estadual nº 16.751/2010, que estabelece o Programa Paraná Mais Orgânico. Antes mesmo da unidade piloto, já possui cartas de interesse da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (AOPA) e do município de Tijucas do Sul (PR), que também poderão ser beneficiados, como apresenta Proença.
“Os municípios poderão suprir o cinturão verde de produtores com fertilizantes orgânicos e suprir alimentação segura para ser usada por produtores de suínos, por exemplo, que gerarão produtos para comercialização em feiras de produtores ou mesmo atender as merendas escolares, gerar energia sustentável para abastecer bairros inteiros, gerar hidrogênio verde, que pode ser usado em frotas de transporte urbano ou ser usado como fonte de renda, como commodity. Tudo isso em função de uma nova forma de tratar resíduos urbanos e rurais”, salienta.
Por fim, o coordenador garante que a parceria com a Global Sistemas de Sustentabilidade pode servir de exemplo sobre como fazer pesquisa aplicada em parceria com empresas, com a geração de um modelo de desenvolvimento nacional. Enquanto para a Biorrefinaria, também há o interesse de aplicação internacional.